Julho
de um ano qualquer. Inverno sêco na América do Sul. Na aproximação à pista,
através da pequena janela do 737-800 da Iberia, após muitas horas de vôo, vislumbrava,
ao longe, num final de tarde frio, crepuscular, a luminescência da vibrante, cosmopolita
e eterna Buenos Aires. Momentos depois, a aeronave pousava suavemente na pista
principal do aeroporto internacional da capital argentina.
De
imediato, a minha fértil imaginação levava-me para uma das muitas milongas que proliferam pelos típicos bairros
dessa gigantesca metrópole sul-americana.
À
saída do terminal A, o das chegadas internacionais, esperava-me uma das minhas
paixões de sempre. Alicia Romero, hoje CEO da subsidiária argentina de uma
multinacional americana da área da cosmética. Os seus longos cabelos castanhos,
a sua impecável maquilhagem, os seus olhos verdes-claros, os seus lábios
sedutores delineados por um discreto bâton
rouge-bordeaux contrastavam com um tailleur negro, cintilante. Al, como eu carinhosamente
a tratava, estava simplesmente arrasadora!
Ainda
distante dela, ao ver toda aquela silhueta, dengosamente curvilínea,
perpassou-me rapidamente pela memória, a inesquecível noite numa suite de um luxuoso hotel de Paris, onde
completamente nua, dançava o tango à média-luz, somente com a minha écharpe de boémio sobre a sua cútis pura
e sedosa, escondendo-lhe maliciosamente os seus belos seios. O seu telemóvel
reproduzia “Tomo y Obligo”, o meu
tango preferido na versão instrumental de Paco
de Lucia e sua guitarra. Como um louco, inebriado por aquela visão divinal,
partilhei com Al seus passos de dança, envolvendo-nos num turbilhão de
sensações, atingindo um clímax indescritível que durou longamente até à exaustão total.
Ainda
no aeroporto, envolvendo-me num abraço profundo, beijou-me apaixonadamente.
Mesmo ali, as nossas feromonas já fervilhavam intensamente. Agora, entrava num
Porsche cinza claro, último modelo, que Al, com o seu charme de sempre, conduzia, até pararmos na sua milonga favorita, onde nos esperava uma
pequena orquestra que à nossa chegada repetiu magistralmente o célebre tango de
Carlos Gardel e das nossas recordações…
Inesquecível!
-
“Alto lá e para o baile”! – berrou o mini-strumf carpinteiro esbaforido, vindo
do meu subconsciente. E continuou, atormentando-me o bestunto:
- Maximus, lembra-te
que estás a escrever sobre o Lionel e o Narciso, ok? Nada de te esticares,
certo?
Meti
travões a fundo e comecei a escrever a história que dá vida ao título deste post…
Mas
não. Desisti.
Comparar
Lionel, o catedrático das Pampas, com Narciso Laurissilva, é a mesma coisa que
comparar o incomparável - a cena magistral do tango de Al Pacino em “Perfume de Mulher” com os saltinhos
folclóricos do bailinho da Madeira
protagonizado por um vulgar turista inglês no átrio da Pousada dos Vinháticos.
MAXIMUS
VERMILLUS